Camões, Engenho e Arte

A Visita de um Génio

– Ouçam – chamou a professora Rita – pedimos a um escritor muito especial que viesse à nossa escola para vos falar sobre ele e sobre os textos que escreveu. O escritor vai falar convosco e vocês vão estar muito atentos àquilo que ele vos vai contar. Podem colocar-lhe perguntas, mas façam-no na vossa vez. Ouviram bem o que eu disse? Estamos assim combinados?

– Siiiiiim! – disseram todos em coro. – Estamos combinados.

Estavam muito entusiasmados os alunos da professora Rita.

De repente, entrou um homem que aparentava ter 50 e poucos anos. Estava vestido com um traje nobre, de cor preta, no pescoço usava um colarinho branco redondo com folhos, uma capa curta sobre os ombros e nas pernas uns colãs pretos, muito justos. Houve umas risadinhas muito baixas. Que patusco! Trazia uma espada e uma pena. Não era muito alto, nem muito baixo, era mediano, tinha o cabelo e a barba com mesclas louras e grisalhas e o cabelo já mostrava grandes entradas. Tinha uma coisa esquisita preta a tapar-lhe a vista direita. Os alunos estavam impressionados, nunca tinham visto ninguém assim … E o que dizer da espada? E por que razão trazia uma pena? Observavam-no, enquanto ele, pacientemente, pousava os objetos que trazia na secretária da professora e se sentava numa cadeira almofadada. Olhou-os com um ar curioso. Tinha um olhar muito perspicaz e intenso.

– Olá, chamo-me Luís Vaz de Camões, ou Trinca-Fortes para os amigos, tenho 56 anos e fui um Poeta. Para muitos, o maior Poeta Português! – disse com uma ligeira arrogância.

Imediatamente, um aluno pôs o dedo no ar. A professora consentiu que ele falasse.

– Olá! Eu também me chamo Luís, tenho 10 anos, mas não sei o que é um Poeta!

– Boa pergunta, Luís, o petiz! Um Poeta é alguém que escreve poemas, ou seja, textos sobre muitos temas como, por exemplo, a tristeza, a alegria, o amor, o ódio, a injustiça … ou então escreve sobre as aventuras de grandes heróis. Eu escrevi muito e usei isto aqui. Tirou a pena de cima da mesa e mostrou-lhes.

– Ahhh! – disseram os alunos bastante espantados. – Com uma pena?

– Eu sei, eu sei! – gritava uma aluna.

– Sabes? – perguntou a professora Rita surpreendida.

– Sim, o meu pai explicou-me. – disse a menina muito ansiosa.

– Como te chamas? – perguntou o Poeta.

– Leonor …

– Ah! Leonor … Sabes que eu escrevi um poema sobre uma Leonor? Aliás “Leanor”, que era como se dizia na altura. “Descalça vai para a fonte/ Leanor pela verdura/vai fermosa e não segura.”

– Leonor, podes então explicar-nos o que te disse o teu pai? – perguntou a professora Rita.

– O meu pai é professor de História, dá aulas na Universidade e sabe muitas coisas. Antigamente, não havia canetas como há hoje e os escritores escreviam com penas de ganso, cisne, pato ou pavão que tinham de estar bem secas e ser muito compridas. Cortavam as plumas e a ponta da pena, depois voltavam a cortar a ponta, mas na diagonal. De seguida, tinham de limpar muito bem o interior da pena. Voltavam a dar um corte na ponta, na vertical, para a tinta passar e a seguir … a seguir … já não me lembro – disse baixinho a Leonor, bastante envergonhada.

– Muito bem, Leonor, é como explicaste. Quando a pena estava finalmente pronta, era cuidadosamente mergulhada num recipiente cheio de tinta e já se podia escrever com ela. – explicou a professora Rita. Agora, por favor, vamos ouvir o Poeta.

                Luís de Camões, que tinha estado muito atento a toda a situação, retomou a conversa:

– O meu nome já o sabem, mas não sabem que nasci há cinco séculos, ou seja, há 500 anos.

– Há tanto tempo???!!! – exclamaram em coro, muito espantados.

– Sim, foi de facto há muito tempo e, por isso, às vezes, já não me lembro de certas situações que me aconteceram. Por exemplo, não me lembro se nasci em 1524 ou 1525.

– Ah!!! – disseram surpreendidos.

O meu pai chamava-se Simão Vaz de Camões e a minha mãe Ana de Sá e Macedo. Pertenciam à pequena nobreza, mas não eram ricos. Dizem que nasci em Lisboa, Coimbra ou Porto … mas já não me recordo.

O meu tio, D. Bento de Camões, vivia em Coimbra e, desta forma, pensam que terá sido aqui o lugar onde estudei. Li muitos livros sobre literatura antiga e moderna, astronomia, geografia, história nacional e universal, mitologia clássica, latim, grego etc …

– A certa altura, deixei Coimbra e fui viver para Lisboa, onde não me portei muito bem, confesso-vos. Passava o tempo nas tabernas, nas casas de jogo, e noutros sítios mal frequentados … era jovem, gostava de conviver com os meus amigos, gostava de comer bem, beber, rir, ouvir cantar os trovadores …

– E apaixonar-se! – interrompeu a professora Rita. Apaixonou-se muitas vezes!

– Não, tantas vezes como dizem … as pessoas inventam muito, diziam que eu tinha muitas apaixonadas e que lhes dedicava poemas … mas não seria a todas. E mesmo que tivesse muitos amores, não era da conta delas. – disse o Poeta Camões enervado.

– E a Catarina de Ataíde?

– Qual delas? Havia tantas … a neta de Vasco de Gama, a D. Catarina de Ataíde e Lima, que morreu muito jovem …

– Ora … a D. Catarina de Ataíde, filha de Álvaro de Sousa, caçador da Casa da Rainha, senhor de Eixo e Requeixo.

– Mau! Já lhe disse que eram muitas! – disse agora um pouco irritado.

– Sim, mas esta era especial … era aia da rainha … inacessível… – insistiu a professora Rita.

O Poeta deu um longo suspiro.

– Dizem que era muito bonita …

– Dizem que sim … por sua causa fui desterrado três vezes; a primeira para o Ribatejo, talvez em Constância, a segunda para o Norte de África.

– Para o Norte de África?

– Sim, sim. Fui em 1548  como soldado numa expedição  para Ceuta, onde sofri um grave acidente e, por isso, uso esta pala.

– Então, isso significa que só vê com o olho esquerdo? – questionou a Isabel.

– Sim, um estilhaço de bala atingiu-me e despedaçou-me completamente o olho direito.

– E não morreu? – perguntou a Rosa.

O Poeta riu-se.

– Não morri, mas não passei nada bem. Lembro-me de ter sangrado muito e de ter tido dores horríveis.

– E gostou de estar em África? – perguntou a Luísa. – Viu elefantes, leões e macacos?

– Vi camelos e outras coisas também muito diferentes e belas, mas a guerra, a morte, o sofrimento não me deixaram apreciá-los como eu teria gostado.

Fez uma pausa e o seu rosto estava triste. Baixinho, a Luísa sussurrou à amiga Cristina.

– Só viu camelos? Não viu elefantes, leões, macacos …? Os meus pais também foram lá, a África, e viram isso e muito mais!

– Até nos mostraram as fotografias! – disse a Cristina.

– Pois, não estou a perceber … Ah! Já sei, não te esqueças de que ele só tinha um olho!

A Cristina deu uma gargalhada e a Luísa, vendo a amiga, também se riu.

– Meninas, acabou-se a conversa e a risota aí atrás. Vamos lá a ouvir. E a terceira?

– A terceira fui para muito longe … para a Índia!

– Como é que isso aconteceu? – perguntou a Isabel.

– Tive uma briga com Gonçalo Borges, que era seu cunhado. Era 16 de junho de 1552. Em Lisboa, havia a procissão de “Corpus Christi” e Gonçalo Borges, a pessoa responsável pelas cavalgaduras reais, estava a passear a cavalo no Rossio, na zona de Santo Antão, quando dois amigos meus, mascarados, o começaram a provocar. Eu fui apoiá-los. A certa altura, a situação tornou-se mais complicada … sem pensar bem, puxei da minha espada e feri-o no pescoço. Prenderam-me e levaram-me para a Cadeia do Tronco, ali perto. Aqui, tive muito tempo para pensar na minha vida e percebi que estivera sempre envolvido em brigas e confusões … decidi, deste modo, partir para o Oriente, para a Índia.

– Para tão longe? – perguntou a Ana.

– Sim, na altura, a Índia era uma colónia de Portugal. Embarquei como soldado a 24 de março de 1553.

– Foi numa nau? – perguntou o Eduardo.

– Exatamente!!! Na nau de S. Bento, comandada por Fernão Álvares de Cabral, o filho mais velho de Pedro Álvares de Cabral. Dizem que foi aqui que iniciei a escrita da minha epopeia Os Lusíadas, um livro conhecido em todo o mundo. Foi uma viagem difícil, especialmente quando passámos o cabo da Boa Esperança, por isso, transformei, na minha imaginação, o cabo num gigante terrível chamado Adamastor. Por sua causa, houve imensos naufrágios, sofrimento e mortes. Aportei em Goa em setembro de 1553 e deparei-me com um mundo totalmente diferente daquele a que estava habituado.

– Também combateu no Oriente?

– Sim, sim, por duas ou três vezes. Quando não estava a combater, ficava em Goa. Aqui era tudo muito diferente; o clima, a comida, os povos, a vegetação, as paisagens, os animais, os trajes, as religiões… nos primeiros tempos andava num constante estado de admiração. Estava a sempre a pedir aos portugueses que lá viviam há algum tempo para me explicarem o que eu não entendia. Sempre fui muito curioso e perspicaz. Tornei-me amigo de Diogo do Couto e Garcia de Orta. Conheci o mundo para além de Goa. Em abril de 1556, passei Cochim, contornei o cabo Camorim, o litoral de Samatra, passei entre as ilhas de Nicobar e depois o estreito de Malaca. Desci em direção às ilhas do arquipélago das Molucas, tendo aportado em Ternate, ao norte das Molucas, onde estive dois anos e pude ver todos os dias o famoso vulcão Gamalama. O meu escravo António, mais conhecido por Jau, era dali perto, de Java.

                – Tinha um escravo? Hoje em dia já ninguém é escravo de ninguém! – contestou o Eduardo.

                – Oficialmente sim, Eduardo, mas às vezes ainda surgem notícias dessas, infelizmente. – compôs assim a professora.

– E foi a Macau?

                – Sim, parti em 1562 de Goa e estive lá a desempenhar um cargo. Dizem que escrevi parte d’Os Lusíadas numa gruta. Neste mesmo livro, eu contei que, quando regressava a Goa, a nau onde vinha naufragou na foz do rio Mecom, entre o Vietname e o Camboja. Consegui salvar-me, nadando com um braço e segurando Os Lusíadas com a outra.

                – Ena, que cena, meu!

                – João, podes explicar-me que linguagem é essa? Tu já sabes o que eu penso sobre esse tipo de comentários!

                A professora Rita estava um pouco aborrecida.

                – Desculpe!

                – A desculpa está aceite, contudo não o voltes a fazer. Retome, por favor, Sr. Poeta Camões!

                – Também disseram que a minha apaixonada chinesa, a Dinamene, tinha morrido nesse naufrágio e que eu fiquei muito infeliz …

                Fez uma breve pausa.

– Voltei à Índia passados uns anos. Estava em Goa quando pensei em regressar à metrópole.

– E quando regressou a Lisboa?

                – Em 1568, tinham-se passado, pois, quinze anos. Vinha bastante desgastado, cansado, doente e desfigurado. Todos aqueles anos de exílio tinham-me trazido imensa angústia e sentia já bastantes saudades da minha Pátria, família e amigos. Porém, as coisas ainda iam ficar mais difíceis.

– Porquê?

– Já na costa africana, tive um aborrecimento muito sério com Pedro Barreto, futuro governador da Ilha de Moçambique que não me deixou prossegui viagem, enquanto não lhe pagasse o que lhe devia. Permaneci em terras africanas durante alguns meses e só com a ajuda dos meus amigos, que me pagaram as dívidas e a viagem, regressei. Cheguei a bordo da nau Santa Clara em 1570. Havia passado, pois, 17 anos fora do meu país.

– Deve ter estranhado muito a Lisboa daquele tempo … – interrompeu a professora.

– Sim, havia muita gente em Lisboa vinda de África, Ásia, Europa … era uma capital cosmopolita, sempre com muito movimento, muitos negócios e mercadorias a chegarem constantemente da carreira das Índias. Mas havia igualmente muita cobiça, ganância e inveja … Fui viver para as imediações da Igreja de Santa Ana e dediquei algum tempo a finalizar o meu livro Os Lusíadas. De seguida, pedi uma audiência ao meu jovem rei, D. Sebastião, a qual foi concedida, e nessa sessão li-lhe toda a epopeia. Foram reconhecidos o meu talento e o valor do que eu tinha escrito, de modo que a minha obra foi editada em 1572. O rei concedeu-me uma tença de 15 mil réis.

O fim da minha vida foi triste … o meu escravo Jau morreu – dizem que ele pedia esmolas para mim –  tal não era a minha pobreza – mas não o sei dizer, já não me recordo … e a 4 de agosto de 1578, morreu o meu rei, com 24 anos, D. Sebastião, na batalha de Alcácer Quibir e com ele a esperança na minha pátria e no seu rejuvenescimento. O meu corpo definhava de dia para dia, tal qual como o meu país. A 10 de junho de 1580 … morri. Dizem que morri de peste, mas talvez não tivesse sido só disso … fui enterrado na igreja de Santa Ana, numa campa rasa. Mais tarde, mudaram-me para o Mosteiro dos Jerónimos, mas na verdade podem não ser aquelas as minhas ossadas. Filipe II chamou-me o “Príncipe dos Poetas espanhóis”.

Tinha-se levantado o Poeta e fazia o seu autoelogio muito emocionado.

– Sr. Poeta, estamos muito contentes por ter vindo e ter contado todas essas histórias.

– O prazer foi todo meu.

– Meninos e meninas, agradeçam ao Poeta, ao génio Luís Vaz de Camões.

– Obrigadaaaaaaa!!!!

– Professora, o Poeta é como o génio da lâmpada mágica da história do Aladino? – perguntou a Tina.

– Não, ser génio significa alguém muito, muito inteligente, alguém que faz coisas com muito talento, mas não faz magia.

– Professora, posso dizer uma coisa ao Sr. Poeta Camões que o meu pai me diz muitas vezes? – perguntou a Maria.

– Sim, claro … – disse distraidamente a professora – mas depois vamos todos embora, pois já tocou para o intervalo.

A Maria levantou-se e apontou para o Poeta.

– Olha, não me chateies mais, vai, mas é, chatear o Camões! – exclamou!

Uma grande gargalhada soou pela sala, à medida que se levantavam e saíam.

                – Maria, francamente, não estava à espera desta! Desculpe, Sr. Poeta, o desrespeito.

                – Temo não ter entendido …

                – “Oh, Meu Deus, como é que eu vou dar a volta a isto?” – pensou a professora Rita. “Aquela Maria … nem sei o que lhe faça!!!” Ana, por favor, chame a Maria.

MJR

E.B