CAMÕES

Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.

Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto,
Chega aos teus pés e como que arrefece.

Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
Foste louco a cantar e a louco a combater.

Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!

Miguel Torga
In Poemas ibéricos, 1965.


E vê do mundo todo os principais,
Que nenhum no bem público imagina;
Vê neles que não têm amor a mais
Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.
Vê que esses que frequentam os reais
Paços, por verdadeira e sã doutrina
Vendem adulação, que mal consente
Mondar-se o novo trigo florescente.

Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino e ao povo caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade.
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e vã severidade:
Leis em favor do Rei se estabelecem,
As em favor do povo só perecem.

Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,
Senão o que somente mal deseja;
Não quer que tanto tempo se releve
O castigo, que duro e justo seja.
Seus ministros ajunta, por que leve
Exércitos conformes à peleja,
Que espera ter com a malregida gente,
Que lhe não for agora obediente.

Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, IC/MNE, 2003


O poema de Miguel Torga, dedicado a Camões, e as três estrofes retiradas de Os Lusíadas têm em comum uma visão crítica de Portugal. Apesar de terem sido escritos em épocas diferentes, mostram que os dois autores estão desiludidos com os governantes e com a forma como o país tem sido tratado ao longo da história.
Nas estrofes de Camões, o poeta critica os que têm poder. Diz que os governantes só pensam em si e esquecem o bem do povo: “Que nenhum no bem público imagina” e “amam somente mandos e riqueza”. Camões mostra que esses homens fingem ser justos e honestos, mas na verdade são ambiciosos e egoístas. Usando palavras fortes como “tirania”, “adulação” ou “mal deseja”, o poeta mostra revolta com quem manda no país e apenas protege os seus interesses, esquecendo a justiça.
Miguel Torga, no seu poema, fala com respeito por Camões, mas também com tristeza por ver que os ideais do poeta não foram cumpridos. Diz que Camões deu à pátria um “Canto” (um poema grandioso), mas que ela “to não merece”, ou seja, não foi digna desse esforço. Usa a imagem da “nau do sonho insatisfeito / que não teve regresso” para mostrar que os sonhos e esperanças de Camões ficaram por cumprir, tal como a promessa de um país melhor.
Tanto Camões como Torga usam a poesia como forma de crítica e alerta. Com expressões fortes e imagens marcantes, os dois autores mostram que não basta ter glória ou poder — é preciso cuidar do povo, da justiça e da verdade. Ambos mostram amor por Portugal, mas um amor exigente, que quer ver o país a viver de acordo com os seus melhores valores.

p.f.